O casal João e Lídia posam em seu sexshop ao lado da manequim. ‘Aqui nada é proibido, cada um com Deus’. Foto: Divulgação O que Deus ...
O casal João e Lídia posam em seu sexshop ao lado da manequim. ‘Aqui nada é proibido, cada um com Deus’. Foto: Divulgação
O que Deus uniu ninguém separa. A citação que está no livro de Marcos
(capítulo 10 e versículo 6) da Bíblia serve como um dos alicerces aos
evangélicos que disseram sim no altar. Aproveitar “o sexo que agrada
Deus” e honrar a monogamia no casamento é o desafio, mas isso não
significa ter uma vida sexual monótona. Evangélicos ouvidos confirmam: o sexo deve ser prazeroso e potencializado com produtos eróticos.
“Deus não se importa com o que o casal faz entre quatro
paredes”, diz João Ribeiro, que é proprietário do sexshop Secret Toys e
membro da Congregação Cristã do Brasil, uma das igrejas mais
tradicionais do País. O uso de artigos sensuais no meio gospel pode
surpreender aos que olham para os religiosos como frígidos ou que
encaram o sexo como pecado se praticado além da reprodução.
Para Ribeiro, ainda há falta de informação dentro das
igrejas. “O sexo que agrada a Deus é entre homem e mulher casados, ponto
final. A Bíblia não menciona como deve ser feito. Se é em pé, sentado
ou deitado. Da porta para dentro do quarto é o casal que cria as regras
do jogo”, fala. As regras e os medos foram impostos por homens, segundo
ele, nos primeiros momentos da Igreja Cristã.
O número de denominações evangélicas hoje reflete a pluralidade de
opiniões sobre o que é certo e errado dentro do sexo, quando “homem e
mulher viram uma só carne”. Enquanto parte defende o vale tudo dentro de
quatro paredes, pastores ainda debatem a prática do sexo oral e anal,
fortemente proibidos pela Igreja Católica. O que vale no final é a
relação pessoal do casal com Deus, defende a maioria.
Cláudia*, evangélica de aproximadamente 40 anos, conseguiu aproveitar
o sexo com o companheiro após dez anos de casamento. O sexo existia,
mas ela não se entregava completamente ao marido até ler a trilogia “50
tons de Cinza”. As passagens com cenas de sadomasoquismo, entre os
personagens Anastasia Steele e Christian Grey, passam longe das suas
preferências, mas os livros abriram sua mente sobre a entrega dentro do
quarto. “Eu tinha uma barreira psicológica. Questionava até onde poderia
ir e o que era permitido por Deus ali. Já hoje comprei até uma algema”,
disse aos risos, revelando certo conforto com o tema.
A primeira ida ao sexshop e as investidas em motéis marcaram uma
mudança de postura de Cláudia e trouxeram uma nova intimidade ao
matrimônio. “O quarto era enorme, impossível ser para apenas um casal,
mas nem pensei nisso. Deus mesmo fala que onde eu pisar será santo. Não
encanei.” Escolher o motel como local para relações íntimas ainda é
muito condenado entre os fiéis pelo histórico de relações extraconjugais
e homossexuais. “Estou me sentindo bem com isso, Deus ainda não me
condenou”, tranquiliza-se Cláudia.
Ela conta que encontrou em produtos sensuais uma ajuda para resgatar a
intimidade com o marido. “A ideia de você querer comprar já é um sinal
de que você quer e pode usar. Fantasiar dentro do casamento não é
pecado.” Ela continua: “Após mais de dez anos, posso dizer que alcancei a
plenitude sexual com meu marido. É incrível isso. Emocionalmente
falando, nunca estivemos tão bem.”
Cláudia não está sozinha em suas idas aos sexshops. Milhares de
casais evangélicos estão descobrindo os produtos eróticos como tempero
para o casamento. O mercado erótico percebeu o interesse e desenvolveu o
Guia Gospel para Sexshops, concluído em novembro e que será lançado em
livro em março deste ano. Em 90 páginas, a Associação Brasileira das
Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme) discute o surgimento de
sexshops especializados e um novo tipo de atendimento aos religiosos, os
consultores de casais ou consultores matrimoniais.
“Criamos o Projeto Gospel para debater o novo formato do sexshop e o
atendimento diferenciado com consultoria de casais, que vai além da
venda de produtos. O guia reúne as experiências de trabalho com o grupo
evangélico”, explica Paula Aguiar, presidente da associação, que defende
o atendimento diferenciado aos religiosos. Para ela, adotar eufemismos e
cuidados é um forma de respeito. Em um atendimento especial, por
exemplo, o sexo oral passa a ser chamado de “beijo na região íntima”, a
palavra sexo é substituída pela relação afetiva e vibradores são citados
como massageadores ou estimulantes íntimos.
“Bem-vindo à Disney”
Após enfrentar a crise econômica em Portugal, o ex-bancário João
Ribeiro e sua mulher Lídia Ribeiro buscavam uma alternativa financeira
no Brasil. Criados em lares evangélicos, os dois surpreenderam suas
famílias quando decidiram montar uma sexshop em Jandira, região
metropolitana de São Paulo. Os dois frequentam a Congregação Cristã no
Brasil de Alphaville e são discretos sobre a nova profissão. Mas na loja
abordam os novos clientes com a frase “Bem-vindo à Disney”, que
funciona como um ótimo quebra-gelo.
“Na igreja, não falamos que vendemos produtos eróticos
porque isso pode gerar constrangimento. Se perguntam, explicamos que
somos consultores de casais e isso desperta muita curiosidade”, conta
Lídia. “Sempre ouvimos: “Mas ajudam como?”. Respondo que ajudamos o
casal a se reaproximar e até esquentar a relação”, diz Ribeiro. Uma
estratégia do casal é dar folhetos com 10% de desconto para segunda
compra. A ordem é entregar ao parceiro o papel e fazê-lo usar o
desconto. Tem funcionado.
O casal explica ainda que após boa consultoria – e não só
compra de produtos eróticos – muitos casais evitam o divórcio. “Muitos
casais da nossa igreja se separam porque não encontram apoio.
Evangélicos com problemas procuram pastores e escutam um ‘vamos orar’.
Mas muita coisa se resolve com uma boa conversa e orientação”, defende
Ribeiro, ressaltando que a mulher faz curso de terapeuta sexual para
ampliar o atendimento.
A loja Doce Sensualidade, em São Paulo, também aposta no cuidado com
os clientes mais tímidos. Hoje, 40% dos clientes são religiosos. A dona
Thaís Plaza coleciona histórias curiosas. Como a de uma senhora com
saia longa e visual cristão que se escondeu atrás de um abacateiro
enquanto esperava a porta da loja abrir. “Ela tinha uma voz trêmula no
telefone, estava preocupada se seria vista entrando aqui. Após o uso do
primeiro produto, voltou, comprou mais e é hoje uma das clientes que
mais indica a loja para amigas.”
Católicos são os mais “travados”
Além de oferecer atendimento na loja física, Thaís organiza encontros
de casais religiosos e palestras para apresentação de produtos. Segundo
ela, os católicos fervorosos são mais “travados” do que os evangélicos.
Antes de entrar em uma paróquia da capital, Thaís precisou mostrar ao
padre o que apresentaria aos fiéis. A reunião foi breve e clara: nenhum
produto para sexo oral ou anal seriam citados.
“Levei um kit completo e ele selecionou o que poderia falar e o que
não seria legal. No final, falei sobre massagens, a importância do beijo
na boca e partimos direto para a questão do lubrificante para
penetração”, diz a empresária, que prometeu ao padre nunca revelar o seu
nome e o da paróquia. “Ele entende o meu trabalho, só não quer comprar
uma briga contra uma cultura.”
Thaís defende maior discussão do tema dentro das igrejas e
comunidades religiosas. “Precisamos abandonar o pensamento de que sexo é
apenas encontro de genitais”, conclui.
Mesmo com maior espaço para debate, muitas igrejas
evangélicas ainda não sabem lidar com a sexualidade dos fiéis. A
pedagoga e terapeuta sexual Thelma Regina da Silva, de 32 anos, enfrenta
preconceitos diariamente para falar de sexo na igreja, principalmente
por ser solteira. Depois de sua conversão, em 2011, na Igreja Batista
Água Viva, Thelma teve um sonho e entendeu que ajudar casais seria a
missão de sua nova vida. “Ser terapeuta sexual era como ser prostituta
ali. Aos poucos fui conquistando o respeito de pastores e de outros
casais.”
A consultora questiona o uso de eufemismos durante o
atendimento para os religiosos. “Acho que vai de cada caso, mas não
podemos transformar sexo oral em beijinho santo. A nossa ideia aqui é
quebrar o tabu do sexo e não alimentar medos sobre o tema”, afirma. Ela
ainda acredita que há muito trabalho a ser feito nos púlpitos dos
pastores. Muitos líderes ainda citam a relação sexual como uma obrigação
feminina e elevam a satisfação do marido, reforçando a submissão dos
tempos bíblicos. “Ainda estão pregando como a mulher deve se produzir ao
marido, investir em lingeries, estar cheirosa. Mas e os homens? Isso é
responsabilidade deles também.”
Para ela, líderes precisam entender que a sexualidade deve ser
apresentada também aos jovens cristãos, que enfrentam dúvidas logo na
adolescência. “Trabalhar com jovens é o caminho para a Igreja Cristã
construir melhores casamentos. Penso que os casais quebrados hoje foram
adolescentes mal informados no passado. Arrumando isso poderemos
fortalecer o bem mais precioso para Deus, a nossa família”, conclui.
Fonte;Jornal de Hoje

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